Eu era muito humana para toda sua exatidão.

Você vai acordar em em uma segunda-feira de manhã e não conseguir levantar da cama. Vai olhar para o relógio que só marca uma hora, virar de novo e não se importar. Vai perceber que não tem nada arrumado e limpo no seu quarto. Nem na sua vida. Vai ser forçado pelos raios que refletem na sua janela a levantar. Levanta. Vai beber o café de semana passada com preguiça de preparar um novo. São todos iguais, não é? Pessoas e cafés, são todos iguais. Com o tempo vão estragando. Vai perceber que está atrasado e não se importa. Tudo em sua volta gira por conta de três noites maus dormidas. Você finalmente chega no trabalho, mas não há ninguém. Todos já foram embora há tempos atrás. Não restou nada na sua mesa além de uma carta escrita:
"Acabou, Carlos. Você finalmente está sozinho. Não era isso que queria afinal de contas? Se isolar de todo o mundo. Ninguém era bom o suficiente para você. Para toda essa sua exatidão. Quer saber de uma coisa, Carlos? algumas pessoas são humanas demais para toda essa sua exatidão. Ache agora, Carlos, a equação da vida. A equação que fará o seu café fresquinho mais uma vez, seu quarto arrumado e suas noites bem dormidas." 
Você lê. Acha insignificante. Vocês repararam quantos erros gramaticais em uma carta só? Quem escreveu devia ser um total idiota. Você pensa e senta. Abre o computador mas não há sinal. Nem de internet, nem de vida. Você lembra que já existiu pessoas ali. Algumas não tão trouxas. Você lembra da Lilian que te fazia o café exatamente do jeito que você gosta. Mas, cadê Lilian? Você sabe que Lilian era boa demais em gramática para escrever uma carta daquela. Mas, cadê Lilian? Aliás, cadê aquelas outras pessoas que trabalhavam aqui? Se é que se pode chama-los de pessoas, inúteis.Você está cansado de pensar. Deita no chão do escritório. Olha para a Janela. Você nunca se importou com o canto dos pássaros mas agora nem ouvir os ouve mais. Você vê caos. sujeira. Você não vê o mundo. Você se vê. Você se lembra por quê não fazia café há semanas. Meu deus, cadê Lilian? Você se lemba porque não consegue se levantar da cama, não sem Lilian.Cadê você, Lilian? Você se lembra quem te fazia não perder a hora. Cadê Lilian? Você sabe quem deixou a carta. E quem te deixou. Lilian. Você sabe que não há erros gramaticais. Você procura desesperado por um. Não acha. Lê novamente e percebe que não há algum. Meu deus, era Lilian.