A cada balanço, um motivo para cair

A cada balanço da cadeira, um suspiro. A cada suspiro, uma lembrança. A cada lembrança, uma lágrima. A cada lágrima, uma dor. Aqui estou sem vontade, sem ânimo, nem juventude me restou. Quem me dera ser jovem mais uma vez, quem me dera as sextas-feiras, quem me dera os bailes de outrora. Quem me dera eu mesma apenas mais uma vez.  Sexta-feira, dia de circo. Dia de almejar toda a magia e sutileza que era sentar naquela arquibancada e ver outros jovens, como eu, saltar de uma distância infinita que parece alcançar o céu, mas nunca cair. Ver os palhaços com energia suficiente para iluminar uma cidade por três semanas inteiras. Sentir a habilidade dos malabaristas tentando equilibrar tudo em uma mão só, os mágicos desafiando todas as leis que o humano inventou. Mas o mais incrível era observar a platéia, e seu olhar estagnado. Acompanhando atentamente o trapezista ao saltar, como se sua vida também estivesse lá em cima. De repente tudo lá fora passa a ser besteira. Vida real passa a ser lá em cima com o trapezista, o único medo e agonia seria vê-lo despencar. E quando tudo finalmente dá certo, alegria. Me restaura um pouco a juventude quando lembro de cada rosto naquela platéia. Mas agora os palhaços não riem e nem fazem rir. Malabaristas não possuem nenhuma sequer habilidade. Mágicos não desafiam nenhuma lei. Trapezistas perderam sua audácia. Platéia prefere a televisão. Eu prefiro minha cadeira de balanço. A cada balanço, um devaneio.