já é meia noite, meu bem. não há mais desculpas, já se foram todos os argumentos. nós temos que ir. a luz nos espera lá fora. temos que ir logo, ela não ficará por muito tempo aqui. sabe, meu bem, todos ficam cansados. chega uma hora que a existência bate em nossa porta e sussurra coisas que não queremos ouvir, que tudo está mal, tudo está errado.
não me leve á mal, sempre fomos errados. desde o café derramado até as grandes mentiras. mas não se engane, não dê ouvidos á essa existência sugadora de momentos bons. eu juro que tranquei a porta, com todas as minhas forças tampei o ouvido para não escutar, mas não consegui. quando estava quase abrindo a porta, lembrei dos pequenos detalhes, aqueles que importam. do seu cabelo refletindo a luz do meu quarto, da maneira doce e inesperada em que discordava das notícias do jornal, do seu jeito de me dizer que estava tudo bem, que no final, nada disso importa. eu me lembro de todos os pequenos detalhes que importam. até mesmo daquela mancha de café que lhe fez chegar atrasada.chegará um dia que nada disso importará, os pequenos detalhes irão.
a existência está aí fora, esperando. continua a sussurrar o que devemos fazer. nós devíamos segui-la, sabe? nunca fomos bons com escolhas, quem sabe a existência seja. atendemos ou não? não, se atendermos os pequenos detalhes se irão. mas a luz nos espera lá fora. temos que passar pela existência para alcança-la. tudo nos leva de volta á essa maldita existência.
já é meia noite, meu bem. atendemos ou não?